domingo, 13 de dezembro de 2015

Consciente inexistente.

Quando enfim o frio da noite adentrou a janela do meu quarto, pude então perceber tamanha solidão. Havia estado por horas, sentado na cadeira debruçado na mesa por cima de livros e recortes de jornal. Buscando desesperadamente por uma ideia que descrevesse o real aspecto da minha incapacidade emocional. A mesma sensação fria de antes perturbava a minha estadia, tomando meu corpo, uma auréola gelada envolvia-me. Levantei para tentar observar de onde vinha uma música fina que trinava nos meus ouvidos – talvez estivesse marcada na memória. O cansaço do meu corpo vencia-me muito rapidamente, e em nada que eu me pusesse a pensar distraia-me a atenção do meu estado seco e, sem inspiração. Um caos implantado dentro da minha cabeça. Essa sensação de inutilidade, esse desconforto emocional. Anônimo na vida, um conto persistente de uma racionalidade que não encontra razão no consciente. Tudo a minha volta definhando. E esse abismo de todas as coisas é o sossego.


® Thiago França Bento.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Reflexo Efêmero.

O espelho do banheiro totalmente embaçado pela fumaça do banho quente, que acabara de tomar. Ele demorou a perceber a sua imagem destorcida, que estava refletia no espelho. Demorou ainda mais para perceber, que alguém refletia no espelho. Leve piscada com os olhos, não estava entendendo, de repente pensou, que nunca tinha entendido nada. Permanecendo ali – parado – fitando o buraco fundo, que por um momento o espelho tivera se transformado, que refletindo sua imagem, não suportava o fato de não se reconhecer. Os traços ainda permanecem sendo os mesmos, só não sabia em quem se tornou. Entendera em um súbito pensamento invasivo, que passara por sua mente, o quanto sua vida estaria embaçada, assim como o espelho. Não sabe ser, e não sabendo ser, deixa de ser o que vive sendo. O peso úmido do silêncio o envolveu, o silêncio pesando suave na pele nua, como um poema suado, permanece no silêncio com sua pele úmida.


® Thiago França Bento/2015.

sábado, 14 de novembro de 2015

A fragrância.

Vez e outra o vento sussurra palavras em meus ouvidos. A palavra parece carecer de ser ouvida. Parece querer ser – ser o que ainda não é. Palavra cumprida. Trem que não tem destino certo. Só palavra sem ponto – vírgula só de vez em quando. Tudo está às claras – eu sei. E de um amoroso verso de mim, entre eu e a palavra está à vida. Procuro consolida-la. E pondo em conta que o que eu tenho é só a intenção. Palavra é como revelação. Nasce sem se saber de onde. Meu pensamento que também se certifica, o sol nasce á palavra cresce – brota também. Num dia em que o sol radiava raios cumpridos, de um resplendor que dava é gosto de perceber, eu estava sumido pelo campo – lá entre as rosas – pela beira do riacho caminhando. Fui surpreendido. Primeiro tudo foi se esclarecendo. O céu foi tomado por um brilho intenso, brilho que eu ainda não havia visto. As árvores pareciam sorrir. Tudo ganhando outro compasso. Outra métrica – forma mesmo. Eis ela, a palavra, ligeira e cheia de mistérios, parecia querer conversar. Revelara-se para mim pela primeira vez. Um êxtase sem comparação. E a palavra tomando conta de mim por completo. Amei logo este campo da revelação. A palavra era agora uma aliada minha – filha mesmo. E sem invocações ela era livre dentro de mim. Ela sorria para mim – era quente – muito valiosa. Eu saberia logo, que cercado por palavras não carecia de mais nada desta vida. O meu amor. Tocha de fogo reluzente, que clareando tudo, dava gosto de viver. Este amor fresco de um brilho de ouro pusera em mim uma sensibilidade nova. Uma vida nova. Eu não via nunca a noite chegar, o céu estava sempre às claras. Sempre novo. Reluzindo vida e, muito amor. A palavra perfuma os pensamentos, é toda conjuntura da intelectualidade. Ela é à força do enredo. Na história é todo o sentido, o começo meio e o fim. É a que da forma. Visto que é ela que te escolhe. Brado triunfantemente para quem quiser ouvir: palavra é para se sentir.


® Thiago França Bento.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A revelação.

Então seguindo peregrino e desesperado eu ainda mantenho as lágrimas da fé. Meu coração não aprendeu a ser o alvo. Meu coração tem sido medonho quando o corpo se entristece. Da cama, ergui-me trêmulo e sem controle. Minha vida que se diga, o frio do silêncio tomou conta de mim, como se toda realidade fosse um perigo constante. Eu tive que tragar a realidade antes que ela me convencesse. E então eu era o que sou preso a essa carne aparentemente sólida. Eu sou o lírico das manhãs. O cinzento do dia, a parte despercebida do humano. Num dia de inverno, numa hora mansa da madrugada, com o pensamento deslocado eu simplesmente não era nada. A sensação tornara-se absurda. Desesperadamente muda. Abstrata. Minha alma atordoada perdeu o brilho. E então eu sou o pensamento, o mesmo pensamento de sempre. A cena muda de outrora, o tempo criado embaixo dos meus olhos. Que suprema revelação! Eu sou o pensamento que se tornara para sempre pálido e, muito confuso. O céu adormece em mistérios ocultos, e tentar decifrá-los é ter com ele um grande e, profundo desgosto.


® Thiago França Bento.