quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O sol não brilhou está manhã/

Ergui-me sonolento. Ouço o cachorro anunciar, com um choro lamentável, a chegada silenciosa de quem nunca repartiu nada comigo. Fui até ao banheiro, ergui a tampa do vaso para urinar. Geralmente não preciso levantar a tampa do vaso para usá-lo, ela sempre está erguida. De fora do banheiro sinto-me observado. O som quer sair, mas o silêncio ganha, o silêncio sempre ganha. Eram dez horas da manhã. O telefone toca. Apresso-me para atendê-lo. – Alo? – não é aqui não, senhora, é engano. Era engando, toda vez é engano. A perda considerável de expectativas vem crescendo, no entanto o meu comportamento tem sido verdadeiro. Meu sentimento, vez e outra, quer ser o motivo para justificar o fato de eu não sentir o gosto do café na minha boca.


® Thiago França Bento.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Primícias do Sono.

Fito ininterruptamente a xícara com o café ainda muito quente. Dois cigarros ainda restam no maço. Sem hesitar acendo um dos cigarros e uma forte sensação de devaneio percorre essa minha malícia frustrada das manhãs de domingo. E ao ponto de não entender os passos – o caminho percorrido secretamente pela minha perdida imaginação – ouço o canto permanente dos pássaros. Os pássaros que canta suave o raiar do dia. Não compreendendo o meu estado físico e, meio moribundo, de uma manhã de domingo impregnada pela neblina seca, que cobre tudo lá fora. Ouço em silêncio o canto dos pássaros, e a batida muito lenta do meu coração. Eu estou cansado, talvez mais cansado do que estava há alguns minutos atrás. Não consegui dormi nas últimas 19 horas seguidas. Ontem o dia passou sonolento e pesado. A noite adentrara suave e muito nítida em meu âmago sossegado, e tímido. O que resta para mim nesta manhã solitária é essa imagem seca da neblina encobrindo tudo. O dia parece que será tácito e, o meu instinto rotineiro busca um plano perfeito para compreender a alma do universo estabelecido na natureza humana que há nas coisas. Não sinto o vento correr. Tudo está pálido e parado lá fora. Ainda agora o perfume da morte ventilara nos ares secretos do meu quarto. Quão tola minha existência, pois que até a morte a ignora. Acho que finalmente vou dormir, mas antes fumarei o último cigarro, e tomarei o café, que está na xícara.

® Thiago França Bento.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Enfeite Solitário.

Embora eu esteja só começando minha caminhada pela vida eu estou tão cansado que esse começo tem vestígios do fim. É como a mudança dramática da cor viva de um camaleão perdendo o lúdico a fé, e a esperança. O acumulo paradoxo nos 23 anos de idade, sem culpa nem remorso. São muitos personagens no inconsciente turvo do dia em desatino; eu sou como um conjunto de livros guardados na gaveta de um armário, esquecido há tempo. Eu trabalho o cansaço que tenho na ideia, na constante chuva fina que cai sobre os meus ombros. Eu estou mais encharcado como nunca fiquei estado antes. É a vida em seu ensaio rustico fodendo os meios cognatos. O sono dos dias provocando ruídos, eu não sei se sinto ou se ouço essa música gravada somente na memória dura dos meus medos. A cor ainda rubra das cicatrizes marcadas na minha pele crua – nula – gritando o alfabeto da minha alma nua. Tudo é como um rio que passa no seu sentido peregrino coletando sonhos, que é a crença inventada do sono. Curtindo solenemente a investida do tempo, sussurro os verbos recorrentes a essa caminhada enfastiada de prosa, e sedenta pelo alivio da chegada. Eu tenho razão eu estou cheio de razão, e a razão é uma flor nascida clandestina em meu peito fechado e esquecido. A pétala superior da consciência guardada em meu leito celeste, seu aroma semeia um perfume angelical, um perfume vernal, que preenche a aurora do meu jardim juvenil, a flor é a estação universal do meu corpo. Mesmo que eu esteja só começando a rotina dos meus dias, a mão pesada da realidade cai sobre minha cabeça, e nesses dias sem consolo, tudo vai perdendo o encanto no fundo dos meus olhos entreabertos – pesados – por conta do delírio contínuo que trago comigo. Eu estou concentrado na sobrevivência. Eu estou indo de encontro ao futuro esticado em um horizonte marcado para ter um fim. E por falar em fim, eu termino aqui o fado entediado de enfeitar aniversários.


® Thiago França Bento/Para o dia 09, de todo Dezembro.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Consciente inexistente.

Quando enfim o frio da noite adentrou a janela do meu quarto, pude então perceber tamanha solidão. Havia estado por horas, sentado na cadeira debruçado na mesa por cima de livros e recortes de jornal. Buscando desesperadamente por uma ideia que descrevesse o real aspecto da minha incapacidade emocional. A mesma sensação fria de antes perturbava a minha estadia, tomando meu corpo, uma auréola gelada envolvia-me. Levantei para tentar observar de onde vinha uma música fina que trinava nos meus ouvidos – talvez estivesse marcada na memória. O cansaço do meu corpo vencia-me muito rapidamente, e em nada que eu me pusesse a pensar distraia-me a atenção do meu estado seco e, sem inspiração. Um caos implantado dentro da minha cabeça. Essa sensação de inutilidade, esse desconforto emocional. Anônimo na vida, um conto persistente de uma racionalidade que não encontra razão no consciente. Tudo a minha volta definhando. E esse abismo de todas as coisas é o sossego.


® Thiago França Bento.