domingo, 25 de outubro de 2015

Muito confuso.

Eu tive que ter pena. Antes de tudo ter pena. Eu pensava em um mundo disposto, cheio de expectativas, me encontrei desarmado. Com a alma carregada de versos, o espelho de um céu cujo fundo é branco. Eu me dei conta que do mundo só se pode ter pena. Tudo cresceu a ponto de se perder da vista. O tempo rodou sinistramente. E eu podia sentir toda a curiosidade e paixão desse novo tempo. Céu transitório. Minha alma tem a penumbra da chuva, o frio. O pensamento se recolheu a uma impassibilidade.


® Thiago França Bento.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Depois que eu partir.

Toda criação perdera a certeza do brilho. Todo animal rosnava sofrimento. Toda árvore gemia de dor. Toda ave trinava desamor. Uma torturada e lenta sensação de tudo. Eis que eu sentia o fundo do sentir. Dor antiga atingira meu peito nesta hora em que tudo dorme. Oh, silêncio, eu te saúdo, rendido ao teu domínio. Oh, véu puro da noite, eu te saúdo, teu fulgor é a vivência. Até fingi ser livre, mas minha alma violada era presa em uma fina fumigação do pensamento. Foi num domingo, sentando a beira de um rio, que meu coração parou. Primeiro ele enfraqueceu seu ritmo, e pouco a pouco foi parando de bater. Parei de respirar. O corpo estremeceu por completo. Senti-me sufocado. A negritude da morte encobriu tudo em minha volta. Onde é que estava a vida? Tudo estava sobrando agora. Meu corpo magríssimo, de pernas cumpridas. As mãos suadas, e os olhos entreabertos. Onde é que eu existo agora? Se não para fora de mim. Onde a sensação ultrapassa tudo. Onde o corpo perdera o sentido. E sem sentido nada encontra motivo. Oh, silêncio, eu te saúdo, rendido ao teu encanto. Entre mim e você existe a calma. Uma infinita calma. Existe a infinita jornada muda e tola que o pensamento encobre. Existe o que guardei das manhãs cinzentas. Existe a chuva fina que envolvera minha existência. Então o meu corpo esvai-se. A pele esquece-se do prazer que é a vida. E agora minha alma existe onde há a frieza e, o vazio do fim. Sem contorno o sentimento não vale nada. E sem a vida muito menos. O que é mesmo viver? Esqueci-me da calma. Ela é uma criança que chora. Um susto da existência do que fui. Uma claridade, a realidade, do que agora eu sou. Minha alma antagonista venceu o corpo. Corpo que nunca foi meu. Corpo que ali continuara na beira do rio, que no contato com a terra se desfará em pó. Em mim tudo secou. Porque é no fim que descobrimos que nascemos para morrer.


® Thiago França Bento/2015.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O hospício das certezas.

Deus! Compreendemos a vossa misericórdia para com todos nós, mas entenda também que as necessidades tem sido uma das principais causas para tantos desastres e tantos pecados cometidos. O querer e o poder – passaram do ponto. Em uma desordem humana – tudo é desencontro desesperado.

Suplicando pacientemente eu tenho uma dor profunda, e um fado pesado sobre as costas. Eu adentro madrugadas, múltiplas suplicas na busca pelo conforto das respostas. De Deus mesmo! Um silêncio também profundo adentrava a rocha terrestre das minhas questões. Um ponto obscuro de ideias – a minha falha noturna é tecer rezas desarmoniosas. E como quem não sabe rezar. Tentar ir de encontro ao tão grandioso Deus de todas as coisas.

Mas, passada o inútil destas reclamações, meu espirito já inquieto transfigura-se na imagem desconcertante de certezas recém-criadas pelo meu ego. Na vida há um ponto coerente sobre o saber: Se você sabe. Cala-te por completo na sua filosofia indefinida! E dentro do desespero perturbador dos ignorantes, que se dizem sempre saber, encontramo-nos cara-a-cara com um blasonar infinito de afirmações sem firmamentos. Os que não sabem – danam-se a falar e falar!

A vida de conflitos intermináveis, essa ressonância de tudo, dentro da ignorância do nada. Reparemos calmamente na direção do vento, que hora indefinido, encontra repouso no cume das árvores. Dando-nos a imagem perfeita de uma dança. Encontramos a sintonia perfeita da liberdade, onde o querer dentro do poder é um templo de realidade. Reparemos também na facilidade do voo que os pássaros desempenham – uma harmonia talentosa – que nos dá a doce sensação da liberdade. Mas, entendo que a realidade é a monotonia do tempo – que com tempo – passa como passa esse vento.

Chegando a conclusão precária destas minhas ideias, sobre querer entender as certezas que a vida nos obriga a ter, entendo que assim como os sonhos, as certezas fazem parte do domínio estéril da imaginação. Bem tolo! A imaginação é construída por desejos friamente consolados pelas vontades. As certezas são pecados guardados especialmente para as horas da inquietude da alma.


Thiago França Bento/2015.