sábado, 14 de novembro de 2015

A fragrância.

Vez e outra o vento sussurra palavras em meus ouvidos. A palavra parece carecer de ser ouvida. Parece querer ser – ser o que ainda não é. Palavra cumprida. Trem que não tem destino certo. Só palavra sem ponto – vírgula só de vez em quando. Tudo está às claras – eu sei. E de um amoroso verso de mim, entre eu e a palavra está à vida. Procuro consolida-la. E pondo em conta que o que eu tenho é só a intenção. Palavra é como revelação. Nasce sem se saber de onde. Meu pensamento que também se certifica, o sol nasce á palavra cresce – brota também. Num dia em que o sol radiava raios cumpridos, de um resplendor que dava é gosto de perceber, eu estava sumido pelo campo – lá entre as rosas – pela beira do riacho caminhando. Fui surpreendido. Primeiro tudo foi se esclarecendo. O céu foi tomado por um brilho intenso, brilho que eu ainda não havia visto. As árvores pareciam sorrir. Tudo ganhando outro compasso. Outra métrica – forma mesmo. Eis ela, a palavra, ligeira e cheia de mistérios, parecia querer conversar. Revelara-se para mim pela primeira vez. Um êxtase sem comparação. E a palavra tomando conta de mim por completo. Amei logo este campo da revelação. A palavra era agora uma aliada minha – filha mesmo. E sem invocações ela era livre dentro de mim. Ela sorria para mim – era quente – muito valiosa. Eu saberia logo, que cercado por palavras não carecia de mais nada desta vida. O meu amor. Tocha de fogo reluzente, que clareando tudo, dava gosto de viver. Este amor fresco de um brilho de ouro pusera em mim uma sensibilidade nova. Uma vida nova. Eu não via nunca a noite chegar, o céu estava sempre às claras. Sempre novo. Reluzindo vida e, muito amor. A palavra perfuma os pensamentos, é toda conjuntura da intelectualidade. Ela é à força do enredo. Na história é todo o sentido, o começo meio e o fim. É a que da forma. Visto que é ela que te escolhe. Brado triunfantemente para quem quiser ouvir: palavra é para se sentir.


® Thiago França Bento.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A revelação.

Então seguindo peregrino e desesperado eu ainda mantenho as lágrimas da fé. Meu coração não aprendeu a ser o alvo. Meu coração tem sido medonho quando o corpo se entristece. Da cama, ergui-me trêmulo e sem controle. Minha vida que se diga, o frio do silêncio tomou conta de mim, como se toda realidade fosse um perigo constante. Eu tive que tragar a realidade antes que ela me convencesse. E então eu era o que sou preso a essa carne aparentemente sólida. Eu sou o lírico das manhãs. O cinzento do dia, a parte despercebida do humano. Num dia de inverno, numa hora mansa da madrugada, com o pensamento deslocado eu simplesmente não era nada. A sensação tornara-se absurda. Desesperadamente muda. Abstrata. Minha alma atordoada perdeu o brilho. E então eu sou o pensamento, o mesmo pensamento de sempre. A cena muda de outrora, o tempo criado embaixo dos meus olhos. Que suprema revelação! Eu sou o pensamento que se tornara para sempre pálido e, muito confuso. O céu adormece em mistérios ocultos, e tentar decifrá-los é ter com ele um grande e, profundo desgosto.


® Thiago França Bento.